domingo, 6 de dezembro de 2009

Os Sertíadas


CANTO ÚNICO


1 Já o sol estava alto
Com as nuvens a acompanhar
Do cimo de um planalto
Era fácil observar
De um lado, o asfalto
Do outro, o imenso mar
Onde estava, em ordem incerta
A frota que ia partir à descoberta.

2 Içavam as velas, puxavam
Carregavam mantimentos
Suas famílias abraçavam
Mostrando seus sentimentos
Finalmente, embarcavam
Pelos mares bravos e violentos
Assim iam os marinheiros
Rumo à terra dos estrangeiros.

3 Já iam no oceano
Procedeu-se à contagem
Que, segundo um tal fulano
Era necessária à viagem
Mas faltava um marinheiro, catano!
E, mostrando camaradagem
Impedindo que levasse uns açoites,
Não disseram ao chefe que faltava o Bartolomeu Noites…

4 Era um simples rapazola
Contratado no mês passado
Tirou o curso nas Novas Oportunidades da escola
Promovido pelo Estado
Tendo ido jogar à bola
Naquele dia chegou atrasado
Se fosse despedido, do pai levava um “banano”
Lembrou-se… ”Tenho que ir ter com eles ao meio do oceano!”

5 Via já a sua vida a andar para traz
Mas foi, decidido
Tinha de os encontrar, o pobre rapaz
Senão estava f*****
(Só assim fui capaz
De a esta rima dar sentido)
Pôs-se no mar, de confiança cega
Em cima de duas “bicicletes” e um motor a rega.

6 Puxavam-no, as ondas
A corrente era forte
E em vez de ir para o lado das mondas
Começou a andar para norte
Pedalar era mau – não respondas
Mas tinha o motor, que sorte!
Mudou de rumo, mas não percebeu
Para onde iria Bartolomeu?

7 Aquele mar era apertado
“Que estranho” – disse - mas lá foi
Em busca do ordenado
(que, sem ele, ui, até dói!)
Quem o mandou chegar atrasado?
E armar-se em herói?
Estava tão preocupado que nem viu
Que não estava no mar, mas no rio.

8 Entretanto, lá ia a armada
Esquecido o incidente
Ia, pela força da espada
À conquista do Oriente
Daquela Índia encantada
Que ninguém deixava indiferente
“À conquista do Império e da Fama.”
Dizia o capitão Vasco da Gama.

9 Bartolomeu ia desfeito
Para todo o lado olhava
Viu que o seu mar tinha leito
Esta é que ele não esperava!
Achou aquilo suspeito,
E a uma conclusão chegava
O oceano, afinal
Era caminho fluvial.


10 Que podia ele fazer?
Voltar atrás não podia
Continuou sem saber
Que mais lhe esperava o dia
Dia pior não podia acontecer
E isso, ele bem sabia
Mas continuou sua viagem
Deleitando-se com a paisagem.

11 Viu montanhas, pessoas,
Peixes de todas as cores
Carros, casas, foices e “pedoas”
Campos cultivados, zundappes e tractores
Aldeias, cidades, outros rios e lagoas
Toda a variedade de flores
E quando acabei de escrever esta estância
Bartolomeu chegava a Constância.

12 E foi aí que, de repente
A largura do rio ficou estreita
Bartolomeu ficou ciente
Que tinha de virar à direita
Saiu do Tejo, foi para o afluente
Fazendo uma curva perfeita
Seguiu num curso de água entre as árvores escondido
Seu nome era Rio, Zêzere era o apelido.

13E no Atlântico, Vasco da Gama
De confiança se enchia
“Sim, nós conseguimos!” – alto proclama
Como um verdadeiro guia
Parecendo o Obama
- que nessa altura nem existia!
Indo naquela andança
Tinha passado o Cabo da Boa Esperança.

14 Bartolomeu ia seguindo
Quando, subitamente, o Céu escurece
Em frente dos seus olhos, rugindo
Um gigante aparece
E o rapaz, medo sentindo
Tem uma crise de stress
Mas toma logo um calmante
E aquilo passa num instante.

15 Mas a figura horrenda
Da sua vista não some
Tanto que atirou a merenda
Rio fora, estando com fome
Não querendo que o gigante se ofenda
Pergunta, tímido, seu nome
E ele responde, com voz viril:
“Sou aquela barragem a quem vós chamais Cabril!”

16 Bartolomeu, de voz amena
Pediu-lhe para passar
“Só por cima da minha antena!”
Disse-lhe o monstro a gritar
Bem, alguma cena
Se havia de arranjar
“Que quereis de mim, monstruosidade
Para me deixares passar à vontade?”

17 “Não quero ficar sozinho.”
- Cabril respondeu
“Pobre dele, coitadinho!”
Pensou Bartolomeu
A solução era o vinho!
Deu-lhe, e ele bebeu e bebeu…
Tanto que esqueceu a proibição
E até desejou a Bartolomeu boa continuação.

18 A última barreira passou
Quando, na linha do horizonte
Terra avistou
Viu um castelo num monte
A sua embarcação parou
Mesmo à beirinha da ponte
Não sabendo o nome da terra
Decidiu subir a serra.

19 Entrou para o castelo
Na esperança de saber
Que sitio era aquele tão belo
Onde foi parar sem querer
Haveria algum “marmelo”
Capaz de lho dizer
Bartolomeu disse: - “Já sei
Vou mas é falar com o rei.”

20 Contou-lhe as aventuras
Pelas quais tinha passado
Disse-lhe: - “Estou às escuras,
Que sitio é este onde estou aportado?”
O rei, sem frescuras
Disse-lhe, emocionado:
“Não gozes comigo, hã?
Não se vê logo que estás na SERTÃ!!”

1 comentário:

  1. Em duas palavras está BRU TAL!

    Adorei xD

    Beijinho, Ana Maria - CDM

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